Queda na Venda de Veículos

Fabrizio Gammino, diretor da GT, traça um paralelo entre a atual crise gerada pela pandemia com outras da história recente (como 2015) sob o prisma do segmento automotivo. Matéria publicada pelo Jornal A Tarde (Bahia) por Lúcia Camargo Gomes.

As medidas de isolamento social, fundamentais para conter os avanços da Covid-19 em todo o mundo, vão afetar drasticamente o desempenho do segmento automotivo este ano. A quarentena tira as pessoas de circulação, inibindo a compra de veículos. E, além do fechamento de grande parte das concessionárias, há o agravamento da crise econômica e o medo de investir na compra de bens duráveis.

Cai a venda de veículos zero-quilômetro e usados, e os estoques que diminuram nos últimos meses serão impactados tanto pela perda de produção quanto pela falta de compradores. “Estimamos que as vendas de veículos leves cheguem a 2,61 milhões de unidades em 2020 (-3% em relação a 2019)”, afirma Paulo Cardamone, diretor da Bright Consulting. Já a produção teria queda maior, em torno de -4%.

E não será pior porque o primeiro trimestre deve fechar com resultados positivos para a indústria automotiva, com estimada alta de 5% (cerca de 600 mil unidades emplacadas), quando comparado com o mesmo período de 2019. Os dois primeiros meses do ano foram muito bons para Salvador, que teve alta de 46% no licenciamento de automóveis em relação ao mesmo bimestre de 2019. Cresceram também os comerciais leves (27,5%) e as motos (13,6%).

Fabrizio Gammino, diretor da GT Consultoria, que possui escritório em Salvador e tem no setor automotivo uma de suas especialidades, aponta que a indústria já passava por dificuldades antes mesmo da crise. “O Brasil viveu cenários de incerteza coma maior recessão de sua história. Todas as fábricas sofreram com corte de funcionários, queda nas vendas, fechamento de concessionárias e anos sucessivos de prejuízos. O que a atual crise tem de diferente é que se trata de uma crise global, e não local”. Enquanto o Brasil sofria com problemas internos, as matrizes na França, Itália, China, Coreia e EUA conseguiam absorver os prejuízos. “É possível imaginar que algumas marcas mais debilitadas possam passar por problemas mais graves, além da enorme retração de demanda, o que afeta toda a cadeia de autopeças. Alguns segmentos de negócio já começam a anunciar planos de demissão voluntária, e tudo é uma questão de fôlego financeiro que as empresas possuem para atravessar pelo menos três meses de forte retração em vendas, sem a possibilidade de corte de custos na mesma velocidade”. avalia Gammino.

Incentivos fiscais

O consultor da GT enxerga alguns caminhos. Como, por exemplo, mecanismos na lei de responsabilidade fiscal, para que, em caso de exceção, o governo amplie seu déficit fiscal. “O governo pode repetir o que outros países estão realizando, como suspender o recebimento de tributos que vencem de agora até o final da crise, para impedir a quebra das empresas, e não somente postergar o FGTS e metade das verbas do Sistema S, como anunciou”

Indústrias de transformação possuem margens de lucro apertadas, com fluxos de caixa ajustados e com uso de capital de giro, o que impacta no emprego. Para Gammino, todos grandes empregadores já estão as voltas com planejamentos de contenção drástica de despesas, visando sobreviver ao período sem receitas. “Como o mercado é um organismo vivo em que um segmento impactando outro, a perda ou quebra nestes setores mais vulneráveis pode arrastar demais segmentos para o centro da crise”. Os veículos importados devem ser os primeiros a sofrer com a violenta retração. Mas os nacionais também não ficarão imunes.

Com o dólar batendo recordes de alta, acima do patamar de RS 5, a tendência dos preços de carros é de alta inevitável, já que muitas partes e componentes da indústria são importados e sem similar nacional. “Ou as montadoras absorvem essa alta sem repassá-las, ou a tendência das vendas, que já enfrenta o obstáculo da Covid- 1 9, tende a patamares ainda piores do que o período de crise da recessão pela qual o Brasil passou nos últimos anos”, estima o consultor da GT.

A Bright Consulting indica que a alta dos preços dos veículos produzidos no Brasil será um efeito direto, já que o conteúdo importado varia de 30% a 70% do custo variável. Mesmo as empresas com limitada parcela de importações sofrem com as commodities baseadas em dólar. “Aumentos de preços entre 10% e 20%, adicionais aos aumentos já aplicados no período, terão que ser repassados ao mercado rapidamente, o que irá impactar ainda mais as vendas no varejo”, explica Cardamone.

Se servir como alento, poderá haver queda no preço do combustível na estimativa da GT, já que o barril se encontra no patamar de USS 28 e o dólar a RS 5. “Numa conta simples, o barril estava cotado a R$ 140 em 20 de março. Há um ano, seu valor era de USS 68. Por outro lado, o dólar estava no patamar de RS 3,91, logo o barril custava RS 265, 90% mais caro do que atualmente. Como a política de preços da Petrobras reflete o preço internacional, há uma expectativa de ajuste na mesma proporção na distribuidora, embora a população tenha que contar ainda com o repasse do desconto pelos postos de abastecimento”, analisa o consultor Fabrizio Gammino.

Veja Mais: VENCIMENTOS DE IR-FOLHA E IPI ESTÃO MANTIDOS EM ABRIL